sábado, 12 de dezembro de 2009

A igreja de Trairaponga, seus troços e ossos

Por: Rogério Torres

        Quem hoje passa pela Avenida Nilo Peçanha, na altura do Parque Lafaiete, quase não se apercebe da Capela Santa Terezinha do Menino Jesus. Voltada de costas para movimentada avenida – como a menospreza a tão falada modernidade – a igrejinha ainda hoje ali permanece alimentando a crença de seus fiéis. Todos a conhecem, poucos se dão conta de seus trezentos e tantos anos.

       A “Santa Terezinha” tem uma longa e curiosa história, que teve início em 22 de janeiro de 1645. Nessa data, os habitantes de Trairaponga (antigo topônimo do primeiro distrito de Duque de Caxias), fundaram a capela de São João Batista. Essa capela, construída em madeira e em local não exatamente identificado, mais tarde seria substituída por outra em 1660. O novo templo, edificado em “pedra e cal”, ficava em um outeiro de frente para a Baía de Guanabara.

      Ao longo dos anos a capela passou por várias reformas e em alguns momentos, esteve praticamente abandonada. Aproximadamente um século depois o templo deixou de ser sede da Paróquia. Tal fato se deveu à transferência da sede da Freguesia para o Arraial de Pavuna. Assim sendo, para lá foi levado o Orago, “demais santos e todos os bens da antiga matriz”.

      O tempo, em sua impiedosa ação, foi destruindo a capela, desabaram os muros e o cemitério foi profanado, sobrando apenas às paredes mais sólidas do velho edifício. Foi o bispo Diocesano de Barra do Piraí, Dom Guilherme Muller, que a restaurou. “Ganhou, a partir daí, um novo Orago, o de Santa Terezinha do Menino Jesus.”

      Mas, apesar da restauração, a capela jamais recuperou as terras que antes ocupara. O progresso avançara sobre os domínios da igrejinha, roubando-lhe inclusive o antigo cemitério, cujas terras seriam loteadas e vendidas. Devido a esse fato, não era surpresa para os moradores locais o encontro de ossadas humanas, quando havia necessidade de se escavar o solo.

      Nos dias de chuva forte – quando as ruas ainda não estavam calçadas – a enxurrada fazia aflorar ossos em vários pontos da via pública. Nesses momentos muitas pessoas, cuja ambição superava a credulidade, saiam procurando mandíbulas. Acreditavam, talvez com alguma razão, poder encontrar dentes e obturações de ouro entre os despojos. Era a ocasião em que o local virava palco de um verdadeiro festival macabro.

     Quando as ruas do bairro foram pavimentadas, os mortos ficaram definitivamente sepultados sob o peso dos paralelepípedos e asfaltos. Hoje o problema é outro, como toda construção a igreja também necessita de reformas. Mas as obras que vem sendo realizadas sem fiscalização adequada, descaracterizam este patrimônio religioso a cada dia.

     Aqui termina esta história que “Se non è vero è bene trovato”.

Crédito da Foto PB: Arquivo da Igreja Santa Terezinha do Menino Jesus.